Acompanhando as notícias sobre o assassinato brutal de um dançarino no Rio Janeiro, decidi ler os comentários de outros leitores sobre o caso. Não sei dizer se senti mais desprezo pelo assassino do rapaz ou por alguns leitores que se pronunciaram. Antes de qualquer coisa, quero lembrar que estamos falando de uma pessoa que foi violentamente assassinada. Não estamos qualificando características, apenas relatando o ocorrido, que por si só, já é lamentável. Uma pessoa, assim como outras tantas, que tem o direito à vida retirado por uma outra pessoa. Ou seja, a raça humana agindo contra a própria raça, onde deveria ser o contrário. Porém, a história pode ficar pior.
Adriano era um dançarino. O preconceito já começa por aí. Nessa sociedade, um homem não pode ser dançarino, faxineiro, copeiro, empregado doméstico ou dono de casa. O Homem deve ser macho. Apenas macho. No caso de Adriano, o que pesou foi o fato de ser homossexual assumido e não se envergonhar disso. Gostava de usar roupas características, usar maquiagem e manter seu estilo diferenciado. Sofria diversos tipos de preconceito, mas sabia lidar com as situações. Entretanto, Adriano foi assassinado. E é aí que entramos no mérito da questão: Todos os casos de assassinatos de homossexuais são por homofobia?

Esse é o questionamento que mais aparece entre os comentários dos leitores dessa notícia. Mas isso não é somente uma dúvida, é na verdade uma maneira de expor a camada mais superficial do seu preconceito. Entre tantos comentários, li um que me deixou perplexa, onde um leitor diz que o assassino é inocente, pois estava apenas fazendo uma limpeza “dessa raça” da Terra. Que deveria continuar. Pois bem. É aí que respondo a questão desses leitores.
Não. Não são todos os casos de assassinatos que são considerados homofobia. Mas, a grande maioria é sim. A maioria das pessoas ainda não entendem realmente que ser homossexual não é uma “opção sexual”, ou uma “escolha de gênero”. Isso não existe. Não existe um botão de liga/desliga que nos torna gay ou hétero. Não existe uma chave de ligação que nos faça gostar de homem ou mulher. Isso é uma coisa nata ou adquirida de acordo com as nossas experiências, desde o feto e durante toda a vida. Não é uma doença. Não tem remédio e não é “tratável”. Mas não é essa a discussão. Ele não foi vítima de um latrocínio, nem de um simples homicídio doloso. Ele foi assassinado por ser gay. Um hétero não morre por ser hétero, mas o homossexual sim. Morre por não seguir um “padrão”, morre por fazer uma escolha (de assumir e defender ou não a sua sexualidade. Pois existem aqueles que escolhem não assumir por medo de represálias e preconceito), morre por defender seus diretos. E isso vai além de religião ou crença. Respeitar um cidadão em seus direitos é o primeiro passo para uma vida em sociedade.
O que quero dizer é que antes de ser gay, dançarino, negro, pobre ou o que quer que seja o motivo do preconceito, ele era um ser humano assim como você que lê essa mensagem. Num passado longínquo, os antepassados dele podem ter sido os mesmo que os seus. O sangue que corria nas veias desse rapaz pode não ser o mesmo que o seu, mas corria com a mesma função e objetivo que corre nas suas. Quando passar o tempo da decomposição, o corpo dele vai virar pó, adubo. E o seu? Também vai. Vivemos numa guerra chamada preconceito. Cada um defende a sua opinião, mas muitos não sabem respeitar as opiniões alheias. Adriano não era santo, e não digo que todos os homossexuais são imaculados. Mas o defeito dele com certeza NÃO era ser gay. Porque isso não é um defeito. Ele era gay, eu sou mulher, outro é negro, outra é pobre. Ele não será o último, porque a ignorância infelizmente não tem fim. E nessa guerra de classes e raças, quem mais perde é a raça humana, que está entrando em extinção.

Leia essa notícia em: Dançarino de bloco do Rio é achado morto na Baixada Fluminenseok_dsc_1914 tambores_de_olokun2

-E.

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